"Peritos sem regras"

2018-08-16

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Quem beneficia com esta ausência de um quadro Legal especifico e de uma entidade fiscalizadora e formadora?

Fui perito na área Patrimonial, durante mais de 27 anos e como Auditor, colaborei com um Núcleo de Auditoria Técnica Interna de Sinistros durante 17 anos, portanto conheço a realidade de muitas Seguradoras nas PERITAGENS e na FRAUDE.

Para quem não sabe, os peritos trabalham de uma forma independente das seguradoras, ou seja, as seguradoras recorrem a empresas de peritagem para fazerem a regularização dos sinistros. Isto significa que uma empresa de peritagem XPTO pode trabalhar para várias seguradoras.

Embora a profissão de Perito já esteja devidamente identificada na Classificação de Atividades Económicas, não existem regras para quem quiser tornar-se perito, não existe carteira profissional nem obriga a habilitações académicas apropriadas. No limite, qualquer pessoa pode exercer a profissão de perito.

Num mesmo mercado convivem profissionais com muitos anos de experiência com e sem formação específica, peritos formados no estrangeiro e profissionais formados por entidades nacionais ou a expensas próprias.

Como não existe uma autoridade reguladora e fiscalizadora, qualquer pessoa pode ser perito, independente da sua competência ou perfil, pois não existem requisitos para o desempenho da atividade de perito. Assim, o segurado não tem garantias da qualidade e idoneidade profissional do perito que vai regularizar o sinistro. O risco da continuidade do negócio é muito elevado devido a fragilidade na ocorrência de um sinistro. Assim como o Risco reputacional e as perdas financeiras.

As Indemnizações envolvem anualmente o valor de centenas de Milhões de Euros somente nesta área de negócio (patrimonial). E não precisa de ser um ano atípico como o do ano transato consequência dos incêndios.

Eventuais situações de promiscuidade acontecem como em qualquer área de negócio, que envolva dinheiro, sejam valores de milhares ou milhões de Euros.

No entanto como esses mesmos peritos queixam-se dos honorários demasiado baixos, que recebem por uma peritagem, estão expostos a um risco de potencial fraude. Ou seja têm o motivo, o conhecimento e a oportunidade, está assim identificado o triângulo da FRAUDE.

Há peritos excelentes que realizam a peritagem e consequente regularização do sinistro de forma brilhante, o segurado vê resolvido o sinistro rapidamente e de acordo com as garantias da Apólice em Vigor, do clausulado e Verbas associadas. Sem que haja qualquer prejuízo subjacente a falta de rigor no processo de regularização do sinistro.

Por outro lado a formação de muitos “peritos” é mais do que rudimentar sendo que muitos nem sabem bem o que andam a fazer. Ou seja  não definem estratégia na regulação com planeamento e prazos definidos nas etapas consideradas, pedindo por vezes coisas completamente disparatadas aos segurados e transmitindo-lhes por vezes informações incorretas, alem de não se preocuparem com o prazo para a conclusão do processo de regularização, salvo situações de exposição mediática.

A única entidade com capacidades para garantir que os seus membros têm os requisitos para poderem efetuar peritagens com a total independência e critérios rigorosos além das competências para o efeito é a CNPR (Câmara Nacional de Peritos Reguladores).

O que me faz muita confusão é como é que até hoje ninguém legislou sobre a peritagem, a qual devia ser uma atividade devidamente legalizada e submetida a um conjunto de regras e a um código deontológico pois mexe com muitos milhões de euros por ano e pode fazer a diferença entre a continuidade ou não, da vida das organizações ou da sustentabilidade de muitas famílias, as quais já por si ficam debilitadas perante a situação de um sinistro.

Em suma a questão das peritagens é o retracto do nosso país onde cada qual desenrasca-se como pode.

 

Lúcio Pereira da Silva

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